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28 de janeiro de 2016 - 13:03F1, Indy

É hora de evoluir

SÃO PAULO | A FIA deve apresentar nesta sexta-feira uma proposta de cobertura para o cockpit dos carros de F1. Os pilotos têm pressionado por uma melhora na proteção à cabeça nos carros da categoria após as mortes de Jules Bianchi e de Justin Wilson, mas, naturalmente, ainda há alguma resistência.

proposta capota f1 mercedes

Parece que a proposta que a FIA passará às equipes é a da Mercedes, na foto ao lado, com uma estrutura que deve impedir o impacto de alguma peça com o capacete. Não exatamente é fechar o cockpit. A ideia seria introduzi-lo em 2017.

Uma questão que vai afetar a avaliação desta proposta é a visão que os pilotos passarão a ter de dentro do cockpit — melhor dizendo, isso vai pesar em todas as propostas. Aparentemente, não será grande problema. “Mudanças estruturais nos chassis serão necessárias, mas, com quase um ano para execução, não vejo ninguém da parte técnica se colocando contra diante de tantas melhorias de segurança, especialmente depois dos acidentes recentes”, afirmou Alexander Wurz, presidente da associação dos pilotos. Outro ponto é a facilidade com a qual será possível sair do carro em caso de um incêndio, por exemplo. Um desafio de engenharia, sem dúvida, mas não uma missão impossível.

Há também argumentos que pesam para a estética ou para o “conceito” dos carros de fórmula, que vai mudar caso a cabeça dos pilotos seja coberta. Isso é o de menos, na boa.

Fato é que chegou a hora de passar por essa resistência e dar o passo à frente. Se para uns é um “mal” seguir por este caminho, eu digo que se trata de um “mal” necessário.

Bernie Ecclestone deu uma entrevista a um jornal austríaco dizendo que boa parte do público da F1 se apega à categoria pelo perigo. Não sei qual foi o contexto exato em que a pergunta lhe foi feita, então não vou julgar a avaliação de Ecclestone em si — vou apenas citá-la para argumentar em cima do tópico.

“As pessoas gostam de ver um pouco de perigo. Se houvesse um circo em que o acrobata ficasse apenas poucos centímetros acima do chão, ninguém iria.

Melhoramos a segurança na F1. Se pudesse escolher um lugar para ter um acidente, provavelmente você escolheria um carro de F1. Os pilotos na categoria sofrem acidentes fortes, mas soltam o cinto de segurança e saem dali. E isso é algo bom”

Sim, concordo que o povo gosta de tragédia. Gosta mesmo. Os números de audiência do Grande Prêmio comprovam isso. Qualquer acidente rende cliques. Seja uma barbeiragem besta, que chega ao ponto de ser cômica, seja daqueles em que dá PT no carro.

É algo meio sádico que envolve quem gosta de automobilismo. Como diz Nelson Piquet, americano vai para o oval ver corrida porque quer ver o sujeito se arrebentando no muro.

E eu mesmo estaria sendo hipócrita se dissesse que não fiquei no meio desse dilema nas capotagens de Indianápolis no ano passado, por exemplo. Não foi bonito aquele backflip do Helio Castroneves? Claro que foi. Perigoso? Sem dúvida. Digo hoje que foi bonito porque o Helio saiu do carro ileso, como se nada tivesse acontecido. Ao mesmo tempo, estava claro que mais acidentes daquele tipo poderiam acontecer e que eles não só poderiam ser evitados, como precisariam — foram três decolagens em uma semana, alguém ia morrer; com “sorte”, “apenas” um. No fim das contas, deram um jeito de resolver o problema.

Agora, os acidentes de Bianchi e de Wilson. Indo mais longe, de Felipe Massa e de Henry Surtees. Qual foi a plasticidade que eles tiveram? Zero. É só ver quantos replays foram necessários para que se percebesse que Massa e Wilson tinham sido atingidos na cabeça por algum objeto, perdido a consciência e, por causa disso, batido de frente no muro.

E o caso de Bianchi, em que as imagens eram tão assustadoras que sequer foram divulgadas pela FOM? Em tempo, sempre bom lembrar que o relatório da FIA dizia que, diante da violência do impacto da Marussia com o trator em Suzuka, nem mesmo uma proteção maior em torno do cockpit salvaria o francês.

O perigo faz bem ao esporte até certo ponto.

Ninguém precisa morrer

Este é o ponto principal. Ninguém precisa morrer, e o risco de morte no caso de a cabeça ser atingida em alta velocidade é altíssimo. Dentro disso, da mesma forma como tem gente que acompanha porque “gosta de ver sangue”, a notícia da morte de um piloto também afasta muita gente do esporte. A imagem que se passa não é a melhor.

Quer exemplo melhor do que o “parei de ver F1 depois que o Senna morreu”? Concordo que quem só via por causa do Senna não era exatamente fã do esporte, e sim de um atleta específico. Mas era gente que consumia o esporte, público-alvo, o mesmo público-alvo que hoje tanto se lamenta estar em queda.

Bungee-jump é perigoso. Sempre há o risco da corda se romper e o sujeito se estabacar no chão. Quem vai saltar, sabe que isso pode acontecer. Mas se toda hora morrer alguém, a propaganda começa a ser ruim e vai ter menos gente querendo praticar. Até porque, convenhamos, se o cara quiser morrer, ele não vai pular com uma corda amarrada no corpo. De certo modo, o mesmo raciocínio vale para a F1. A longo prazo, isso tem consequência.

E mesmo os mais sádicos não gostam de ver gente morrendo ao vivo na TV.

Fernando Alonso quase tomou uma pancada na cabeça, na Bélgica em 2012, e quase acertou a cabeça e as mãos de Räikkönen na Áustria em 2015. Conseguem imaginar o desastre que seria se um deles, dois campeões mundiais, extremamente populares e pilotos da Ferrari, se ferisse com gravidade?

alonso raikkonen

Por que antigamente ninguém morria com pancada na cabeça?

Tenho uma teoria simples. Não é com embasamento científico, estudo de engenharia, nada disso. É só uma teoria, nem sei se faz muito sentido: os caras morriam antes. Morriam queimados, jogados para fora do carro, porque algo os atingia dentro do cockpit, e por aí vai.

Ainda assim, há casos mais antigos de pilotos que morreram com impactos na cabeça ou no pescoço, como Helmuth Koinnig e Jeff Krosnoff.

E quanto a quem diz que descaracterizaria um fórmula, o termo mais usado em inglês é ‘open-wheeler’, e não ‘open-cockpit’. Os protótipos de Le Mans tinham cockpit aberto, mas as rodas eram cobertas. Nos últimos anos, os cockpits da LMP1 e da LMP2 foram fechados — e provavelmente é graças a isso que Allan McNish está vivo.

A F1, a Indy e as demais categorias de monopostos precisam se mexer para proteger melhor a cabeça dos pilotos. O automobilismo sempre trabalhou para melhorar a segurança, e ela não pode ficar em segunda mão porque vai ser “estranho”, “feio” ou seja lá qual for o adjetivo escolhido para a oposição a esta ideia. Proteger melhor o cockpit — cobrindo, se for preciso — é um passo que o esporte precisa dar.

4 comentários

  1. Leonardo Silva Conrado disse:

    Concordo com tudo que você escreveu, acho que os carros de fórmula, já deveriam ter um cockpit fechado faz tempo. Pelo fato que a utilização de um cockpit fechado, que apresente uma segurança extremamente eficiência ao piloto, e facilite a sua saída do veículo, em caso de acidente, vai melhorar ainda mais a segurança da F1, e poderá servir de modelo para as montadoras de veículos, aprimorar ainda mais a segurança dos veículos de passeio, em caso de acidente. Acho o modelo de cockpit fechado da Ferrari, o melhor modelo de proteção para os pilotos, mas com a entrada de ar do veículo, um pouco mais afastado para trás, de forma a não prejudicar a saída do piloto.

  2. Marcio K disse:

    Ainda dos acidentes das “antigas”, vale incluir o horrendo acidente do Tom Pryce, que teve a cabeça esmagada pelo extintor de incêndio de um fiscal que invadiu a pista e foi atropelado.

  3. Paulo Pinto disse:

    Se o cockpit for totalmente coberto (é uma das possibilidades estudadas), como saberemos quem está pilotando (já que não enxergaremos os capacetes), com os números cada vez mais “engolidos” pelas propagandas?

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