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1 de fevereiro de 2016 - 12:43F1

Egos e reputações

SÃO PAULO | Pastor Maldonado é um dos pilotos mais simpáticos do grid. Conversa na boa com todo mundo, sempre cumprimenta os jornalistas no paddock, dá seus sorrisos aqui e ali. É gente boa.

Também é um dos pilotos mais autoconfiantes do grid. Pega o pódio dos pilotos com maiores egos — e olha que não é fácil essa competição.

Em meio a todas as idas e vindas das disputas políticas na Venezuela, já tinham surgido algumas vezes boatos de que ele perderia seu patrocínio junto à estatal PDVSA. A mais forte delas foi em maio de 2014, quando constatou-se corrupção nos contratos de patrocínio a outros pilotos venezuelanos. Suspeitava-se que Maldonado cairia no mesmo bolo, mas, de fato, a treta era diferente, e ele não foi afetado.

Mas, naquela entrevista, em que não estava tão bem humorado quanto de costume, Pastor soltou uma frase que não esqueço:

Pergunta: Você estaria na F1 sem o patrocínio da PDVSA?

Resposta: É difícil dizer. Tenho tudo para estar aqui. Se você olhar para a minha carreira, venci em todas as categorias. Então, por quê não? Venci mesmo na F1, o que não é o caso de muitos pilotos aqui.

É verdade. O venezuelano venceu na F1. Em 2012, na Espanha, “ganhou ganhando”. Largou na pole, brigou com Fernando Alonso durante a prova, recuperou a liderança perdida e viu a bandeirada em primeiro. Comemorou alucinadamente — e merecidamente. Em termos de desempenho, não dá para negar: foi uma das apresentações mais memoráveis dos últimos anos.

Todo esse ego pode ser avaliado de duas maneiras: 1) ele realmente é mala deste jeito; 2) é um mecanismo de defesa: para se proteger do caminhão de críticas que recebe há uma década, Maldonado infla o próprio ego para ter a autoconfiança que um piloto de F1 precisa ter.

Antes de chegar à F1, Maldonado passou pela World Series e pela GP2. Foram seis anos entre essas duas categorias. Venceu em ambas — inclusive em Mônaco, uma prova que faz a fama do piloto. Também colecionou acidentes e lances controversos até enfim fazer uma temporada dominante, em 2010, e ser campeão. Em 2011, com o suporte da PDVSA, assegurou a vaga da Williams, tirando de lá Nico Hülkenberg.

Fez suas trapalhadas no primeiro ano na F1. Ia bem no GP de Mônaco, podia ficar em sexto lugar, mas se enroscou com Lewis Hamilton já na reta final da prova. Lance polêmico, dividiu opiniões na época. Enfim. Nada que saltasse aos olhos.

Até que veio, em maio de 2012, o GP da Espanha. Era o episódio que poderia mudar uma reputação. Não foi o que aconteceu.

Nas corridas seguintes, Maldonado se envolveu em uma série de incidentes. Bateu nos treinos e na corrida em Mônaco; nos instantes finais em Valência; com Pérez na Inglaterra. Só voltou a pontuar dez corridas mais tarde. Somando todos os pontos marcados a partir daquele Dia das Mães de 2012, demorou mais de três anos para acumular 25 pontos novamente.

Desde que estreou na F1, Maldonado é o piloto com mais abandonos: 32, ou 33% das corridas que disputou. Em porcentagem, é melhor só que Carlos Sainz, que se retirou de sete corridas em 2015. O detalhe: foram sete falhas mecânicas na STR do espanhol. Já com Maldonado, dos 32, 13 têm como motivo descrito nos resultados dos GPs “acidente”, “colisão” ou “rodada”.

Capaz de andar rápido, Maldonado até é. Acredito nisso.

Mas Maldonado nunca foi capaz de afastar o rótulo de pagante que ganhou quando entrou na F1. Ser pagante não é necessariamente um demérito. Campeões já precisaram levar patrocínios às equipes no início de suas carreiras. O demérito é não conseguir se distanciar disso.

Resultado: a Renault e a PDVSA se desentenderam, e os franceses, novos donos da Lotus, decidiram que não valia a pena manter o venezuelano sem a grana da petrolífera. Tivesse Maldonado batido menos e andado mais nos últimos cinco anos, sobreviveria. Não foi o que aconteceu, e, agora, só fica na F1 se conseguir se acertar com a Manor. Tomem como exemplo Romain Grosjean, o segundo piloto que mais abandonou na F1 nos últimos cinco anos, já foi mais criticado que o próprio Maldonado, mas que conseguiu bons resultados e demonstrou evolução em seus quatro anos dentro da Lotus. Foi contratado pela Haas para 2016.

A ‘Autosport’ avisou na quinta e cravou hoje: quarta-feira, dia 3 de fevereiro, a equipe Renault será lançada oficialmente com Kevin Magnussen e Jolyon Palmer como titulares para a temporada 2016.

ATUALIZANDO…

Três minutos depois que publiquei este texto, Pastor Maldonado confirmou no Twitter que está fora da F1 em 2016. Voltando àquela parte dos egos, isso me deixa ainda mais claro em que o piloto se encaixa melhor. Segue o texto:

Meus queridos seguidores, me dirijo a vocês com muito respeito.

Como todos sabem, nos últimos dias surgiram uma série de rumores acerca do meu futuro imediato na F1.

Foram 23 anos no mais apaixonante dos esportes. Comecei muito garoto, com a ajuda de toda a minha família, fomos crescendo e fui me formando como profissional. Conheci o sabor da vitoria, esse que sempre te deixa com mais e mais gana de lutar.

Adolescente, saí em busca dos meus sonhos em terras desconhecidas, sem o calor da minha gente, da minha Venezuela.

Neste momento, me tornei homem e compreendi que existiam muitas coisas que poderiam me afastar do meu objetivo. Mas sempre fui atrás e os atingi.

Mundial de Kart, F-Renault 2000, F3000, World Series e o inesquecível campeonato da GP2. Eu me acostumei a ganhar. Obtivemos mais de 200 troféus, de todos os tamanhos, formas, brilhos, enfim, toda a minha vida de conquistas em um espaço incrivelmente maravilhoso e de muito orgulho para os meus.

Chegou o mais esperado, o sonho, o fim que justificou todos os meus meios, a F1. Uma categoria que me presenteou com a mais esperada das minhas vitórias, aquele GP da Espanha em 2012. Tudo isso graças ao apoio contínuo dos meus familiares, dos fanáticos internacionais e, sobretudo, do meu grande país. Esse cujo glorioso hino foi escutado no mundo inteiro, porque levei a minha bandeira não só no meu carro, mas na minha alma, e, assim, ao alto do pódio.

Hoje, com a maior humildade, lhes informo que não estarei presente no grid de largada da F1 na temporada 2016. Obrigado a todos por suas mensagens de apoio, paixão e preocupação com o meu futuro. Eu me sinto muito honrado pelo apoio de todos vocês e orgulhoso do meu desempenho profissional.

Ratifico meu sentimento de agradecimento a Deus, à minha família, aos meus patrocinadores, aos meus amigos, meus fãs e a todos que ajudaram a materializar este grande sonho de ter podido representar a Venzuela até a categoria máxima do automobilismo. Até logo!

Pastor Maldonado

4 comentários

  1. Dan Patricio disse:

    ah, até q ele baixou a bola no final, tentou ver as coisas pelo lado positivo…

  2. Fabiano disse:

    Achei bacana o que o Maldonado deixou escrito. Talvez o que seja considerado um ego inflado seja por seus resultados e todos sabemos que um sul americano chegar a F1 é feito para poucos. Não digo que era um gênio nem que há crueldade em “tirá-lo” da F1, mas chegar lá e vencer com uma Williams que faz tempo é pelotão do meio não pode ser desconsiderado. O texto dele é de agradecimento aos que lhe deram apoio, estar longe daqueles que realmente gostam dele não deve ser fácil. O texto tem um tom de despedida para a F1, algo como o fim de um sonho, fim de um ciclo. Não rancor nas palavras e o tal do “ego” talvez seja a defesa mencionada pelo Renan do Couto como meio de justificar sua estada na F1. Uma pena perdemos um sul americano na F1, mas resultados, depois do dinheiro, ditam as regras no circo, que consiga trilhar outros rumos, outras categorias.

  3. LUIS disse:

    Parabéns pelo trabalho. Bom texto!

  4. Paulo Pinto disse:

    A categoria máxima está cada vez mais instável em relação a patrocínios.. Maldonado, até então, era dado como certo para esta temporada.

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